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Por que tantos russos estão morando em Florianópolis?

Florianópolis se tornou o principal destino da imigração russa no Brasil. Dados migratórios e uma pesquisa acadêmica ajudam a explicar por que tantas famílias escolheram a cidade.

Por que tantos russos estão morando em Florianópolis?

Quem vive em Florianópolis provavelmente já percebeu. Famílias conversando em russo nas praias, crianças nas escolas, novos moradores nos condomínios e um idioma que até poucos anos atrás era pouco comum no cotidiano da cidade passaram a fazer parte da paisagem de diferentes regiões da Ilha.

Não se trata apenas de impressão.

Florianópolis se transformou em um dos principais — e, pelos registros migratórios disponíveis, o principal — polos da recente imigração russa no Brasil. No início de agosto de 2026, o fenômeno voltou a ser abordado pela imprensa catarinense justamente com Florianópolis apresentada como a cidade brasileira com maior número de registros de imigrantes russos. (Globoplay)

Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgados pela CBN Total ajudam a dimensionar o movimento. Entre 2020 e 2025 foram registrados 4.191 imigrantes russos no Brasil. Santa Catarina concentrou 1.300 desses registros e Florianópolis, sozinha, 1.170. Os números precisam ser interpretados com cuidado: registros migratórios não equivalem necessariamente ao número exato de russos que vivem hoje na cidade, pois uma pessoa registrada em Florianópolis pode posteriormente ter se mudado. Ainda assim, a concentração é suficientemente grande para mostrar que existe algo particular acontecendo na capital catarinense. (CBN Total)

E talvez a melhor explicação disponível até agora venha de uma pesquisa acadêmica publicada em 2025.

O trabalho “Migração de famílias russas para Florianópolis no século XXI: parto, redes sociais e cidadania”, de Michelle Maria Stakonski Cechinel, Maria Helena Lenzi e Gláucia de Oliveira Assis, apresentado no XVI Encontro Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, reuniu dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (SISMIGRA), informações de matrículas escolares em Santa Catarina, bibliografia sobre migrações russófonas, reportagens e uma análise das empresas que auxiliam famílias russas a se estabelecerem no Brasil. Acesse o estudo completo nos Anais do XVI ENANPEGE

O resultado revela um fenômeno muito mais complexo do que simplesmente famílias fugindo da guerra.

A presença russa em Florianópolis não começou em 2022

A guerra acelerou o processo, mas não criou a conexão entre russos e Florianópolis.

Segundo a pesquisa, a cidade começa a apresentar crescimento mais perceptível dos registros de imigrantes russos a partir de 2019. As autoras identificam naquele período a atuação de redes e agências especializadas que já divulgavam Florianópolis para o público russófono e auxiliavam famílias interessadas em vir ao Brasil. (Estudo completo — ENANPEGE 2025)

Os dados analisados no estudo mostram que, entre 2000 e 2024, o SISMIGRA acumulou 1.220 cadastros de russos residindo em Florianópolis, correspondentes a 81% dos 1.502 registros encontrados em Santa Catarina naquele intervalo. As autoras ressaltam que a mudança se torna mais evidente nos anos recentes: aparecem 41 registros em 2019, 75 em 2022, 106 em 2023 e 78 em 2024. (Estudo completo — ENANPEGE 2025)

Novamente, esses números representam cadastros no sistema migratório e não devem ser interpretados como uma contagem da população russa residente atualmente na cidade.

O ponto importante está na trajetória.

Florianópolis já estava se tornando um destino conhecido dentro de determinadas redes russófonas antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. A guerra adicionou um novo componente ao processo: instabilidade geopolítica, receio de mobilização militar, restrições de circulação internacional e o desejo de algumas famílias de estabelecer uma alternativa de residência e cidadania fora da Rússia. (Estudo completo — ENANPEGE 2025)

A guerra, portanto, funciona melhor como acelerador do que como explicação única.

Por que Florianópolis?

Essa talvez seja a parte mais interessante.

Uma família que decide atravessar o planeta para viver no Brasil poderia escolher São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba ou dezenas de outras cidades. Por que justamente Florianópolis?

A pesquisa acadêmica encontrou repetidamente alguns fatores: segurança, qualidade de vida, clima relativamente ameno, proximidade das praias e acesso a serviços de saúde, inclusive uma estrutura de atendimento associada ao parto e ao acompanhamento da gestação. As autoras também identificaram a preferência de muitas dessas famílias pelos balneários da cidade. (Estudo completo — ENANPEGE 2025)

Os próprios imigrantes entrevistados posteriormente pela imprensa apresentam razões semelhantes.

Em reportagem publicada em setembro de 2025, a Folha de S.Paulo ouviu russos que escolheram Florianópolis depois de viver ou considerar outras cidades. Segurança, natureza, possibilidade de trabalhar remotamente e a existência de outros russos já estabelecidos aparecem entre as justificativas. A reportagem também encontrou pessoas que mantinham trabalhos relacionados ao exterior, viviam de investimentos ou haviam aberto negócios no Brasil. (Folha de S.Paulo)

Esse perfil é coerente com o observado pelas pesquisadoras.

O estudo caracteriza o fluxo analisado como predominantemente familiar e associado, em parcela relevante, a grupos com condições econômicas de médio a alto poder aquisitivo. Em suas conclusões, as autoras destacam ainda a tendência de parte dessas pessoas manter ocupações anteriores, em vez de migrar para Florianópolis em busca de empregos locais de baixa remuneração. (Estudo completo — ENANPEGE 2025)

Isso ajuda a explicar uma característica visível dessa migração: ela não se distribui necessariamente pela cidade da mesma maneira que outros fluxos migratórios.

Ingleses, Jurerê, Campeche: onde essas famílias aparecem

Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa foi a tentativa de descobrir onde essas famílias estavam se estabelecendo.

Como não existe um cadastro público atualizado dizendo em qual bairro cada família russa efetivamente mora, as pesquisadoras recorreram a uma fonte indireta: as matrículas de estudantes de nacionalidade russa nas escolas.

Entre 2014 e 2023, foram identificadas 170 matrículas de estudantes russos em Florianópolis, das quais 124 ocorreram em instituições privadas e 46 em instituições públicas. As autoras fazem uma ressalva essencial: são matrículas, e não pessoas, pois um mesmo aluno pode aparecer novamente ao renovar sua matrícula em outro ano. (Estudo completo — ENANPEGE 2025)

Mesmo com essa limitação, a distribuição geográfica chama a atenção.

O estudo encontrou concentração especialmente em Ingleses e Jurerê, no Norte da Ilha; Rio Tavares e Campeche, no Sul; além do Centro. Outros bairros também possuem registros. As pesquisadoras interpretam essa distribuição como mais um indício da preferência de parte das famílias russas pelos balneários e por áreas valorizadas da cidade. (Estudo completo — ENANPEGE 2025)

A escolha não parece acidental.

Nas fontes analisadas pela pesquisa, clima, proximidade do mar e qualidade de vida aparecem repetidamente entre os atributos utilizados para apresentar Florianópolis às famílias que ainda estão na Rússia. Para alguém que pode trabalhar à distância, manter renda proveniente do exterior ou organizar sua mudança sem depender imediatamente do mercado de trabalho local, morar próximo à praia passa a ser uma possibilidade concreta e não apenas uma escolha de férias. (Estudo completo — ENANPEGE 2025)

Isso também ajuda a entender por que a presença russa pode parecer muito maior para quem frequenta determinados bairros da Ilha do que os números absolutos sugeririam.

Não estamos diante apenas de uma comunidade crescendo. Estamos diante de uma comunidade que, ao menos em parte, se concentra espacialmente.

A cidadania brasileira é uma parte central dessa história

Durante algum tempo, a chegada de gestantes russas a Florianópolis foi tratada quase exclusivamente como “turismo de parto”.

A expressão descreve famílias que viajam para outro país para que o filho nasça naquele território e adquira sua nacionalidade. No caso brasileiro, há uma razão jurídica bastante clara para isso.

A Constituição Federal estabelece, como regra, que são brasileiros natos os nascidos no Brasil, ainda que filhos de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país. (Constituição Federal)

Ter um filho brasileiro também produz consequências migratórias para os pais, mas é importante evitar uma simplificação comum: os pais não recebem automaticamente a cidadania brasileira no momento do nascimento da criança.

A legislação permite que pai ou mãe de filho brasileiro solicite autorização de residência por reunião familiar. Para uma eventual naturalização ordinária, continuam existindo requisitos próprios, mas o prazo mínimo de residência pode ser reduzido de quatro para um ano quando o interessado possui filho brasileiro nato ou naturalizado, conforme informa atualmente o Ministério da Justiça. (Ministério da Justiça)

Essa diferença jurídica é importante.

O nascimento do filho abre um caminho migratório particularmente interessante para algumas famílias, mas existe um processo entre o parto e uma eventual naturalização dos pais.

A socióloga Svetlana Ruseishvili, da Universidade Federal de São Carlos, tem estudado especificamente esse fenômeno e propõe olhar além do conceito simplificado de “turismo de parto”. Em artigo publicado na revista acadêmica Citizenship Studies, ela utiliza a ideia de mobilidades de parto para mostrar que a obtenção de uma segunda cidadania pode fazer parte de uma estratégia familiar mais ampla de mobilidade internacional e proteção diante de um ambiente geopolítico instável. Leia o estudo de Svetlana Ruseishvili sobre mobilidade de parto e dupla cidadania

Isso ajuda a entender por que algumas famílias inicialmente vêm a Florianópolis para ter um filho e depois permanecem.

A cidade pode começar como destino do parto e terminar como residência.

Uma comunidade acaba atraindo outra família

Há ainda uma explicação menos óbvia e talvez decisiva para entender por que Florianópolis se destacou tanto diante de cidades brasileiras muito maiores: a própria comunidade russa passou a funcionar como fator de atração.

É aqui que a pesquisa de Cechinel, Lenzi e Assis fica especialmente interessante.

As autoras trabalham com a ideia das redes migratórias. Quando os primeiros migrantes chegam a um destino, acumulam informações que antes não existiam para quem ainda está no país de origem: onde morar, quais documentos providenciar, qual maternidade procurar, quanto custa viver, como abrir uma conta, onde matricular uma criança, quem fala russo, qual advogado contratar e como encontrar um imóvel.

Essas informações circulam.

Quanto maior a rede, menor a incerteza para a próxima família.

No caso de Florianópolis, essa estrutura deixou de funcionar apenas de maneira informal. A pesquisa encontrou agências especializadas no atendimento a famílias russófonas que organizam praticamente todo o processo de mudança.

Uma das empresas estudadas oferece auxílio com passagens, documentos, tradução, advogados, serviços relacionados ao parto, aluguel e compra de imóveis, além de outros aspectos da instalação da família. Para as pesquisadoras, essas empresas funcionam como verdadeiros nós das redes migratórias entre a Rússia e Florianópolis. (Estudo completo — ENANPEGE 2025)

O efeito pode ser cumulativo.

Uma família que chegou anteriormente conta sua experiência. Outra encontra vídeos em russo sobre Florianópolis. Empresas começam a prestar serviços no idioma. Crianças encontram outras crianças russófonas na escola. Surgem amizades, profissionais, grupos de mensagens, negócios e referências.

Florianópolis deixa de ser apenas uma cidade brasileira distante e passa a ser um destino conhecido dentro daquela rede.

Um dos russos entrevistados pela CBN Total descreveu justamente essa experiência: depois de viver em São Paulo, mudou-se para Florianópolis e encontrou na cidade uma comunidade russa maior, além de uma combinação que considerava melhor entre trabalho, natureza e vida social. (CBN Total)

É assim que um fluxo migratório começa a adquirir características de comunidade.

E os imóveis?

Para o mercado imobiliário de Florianópolis, existe um elemento particularmente interessante nesse movimento.

A pesquisa acadêmica mostra que as empresas que mediam a instalação dessas famílias oferecem não apenas aluguel, mas também assessoria para aquisição de imóveis. Isso significa que a relação entre a imigração russa e o mercado imobiliário não é apenas uma suposição de quem observa a cidade: ela aparece dentro da própria infraestrutura de serviços criada para atender esse público. (Estudo completo — ENANPEGE 2025)

A Folha encontrou um exemplo ainda mais concreto. Uma família russa entrevistada pela reportagem começou comprando imóveis em Florianópolis e posteriormente passou a ajudar amigos russos interessados em investir em Santa Catarina. A atividade acabou se transformando em trabalho no próprio setor imobiliário, voltado ao atendimento desse público. (Folha de S.Paulo)

Isso não significa, entretanto, que seja possível dizer quantos imóveis da cidade são comprados atualmente por russos.

Não encontramos uma base pública consolidada que permita medir com segurança a participação dessa nacionalidade nas transações imobiliárias de Florianópolis. Por isso, afirmações como “russos já representam determinada porcentagem das compras” seriam especulativas sem uma fonte específica.

O que os dados permitem afirmar é outra coisa.

Existe uma comunidade migratória crescente; parte dela possui perfil econômico compatível com aquisição de patrimônio; há concentração em bairros litorâneos e valorizados; existem serviços especializados em aluguel e compra de imóveis; e há casos documentados de russos adquirindo propriedades e assessorando outros russos interessados no mercado catarinense.

É um nicho imobiliário real. O seu tamanho, porém, ainda precisa ser medido.

Essa distinção é particularmente relevante em uma cidade onde a presença de estrangeiros pode ser muito perceptível em determinados condomínios e bairros e, ao mesmo tempo, representar apenas uma fração do mercado imobiliário total.

Então por que tantos russos escolheram Florianópolis?

Provavelmente porque não existe uma única resposta.

O fenômeno começou antes da guerra e ganhou intensidade depois dela. A possibilidade de obter cidadania brasileira para filhos nascidos no país tornou o Brasil particularmente interessante para algumas famílias. Florianópolis acrescentou a essa equação segurança percebida, praias, clima, qualidade de vida e serviços de saúde valorizados por esse público.

Depois veio algo ainda mais importante: a rede.

Famílias chegaram, outras seguiram o mesmo caminho, empresas passaram a facilitar a mudança e uma estrutura social russófona começou a se formar. A partir daí, escolher Florianópolis deixou de significar chegar sozinho a uma cidade desconhecida do outro lado do mundo.

A cidade passou a oferecer algo que São Paulo, Rio de Janeiro e outros destinos brasileiros não necessariamente ofereciam na mesma escala para esse grupo: uma comunidade já estabelecida.

É provavelmente essa combinação que explica por que o fenômeno se tornou tão visível em tão pouco tempo.

E há um detalhe final que talvez seja o mais relevante para quem acompanha Florianópolis pelo ponto de vista urbano e imobiliário.

O que começou sendo observado principalmente através de gestantes que vinham ao Brasil para ter seus filhos parece ter evoluído para algo maior. Há crianças matriculadas nas escolas, famílias estabelecidas nos bairros, pessoas trabalhando, empreendendo, alugando e comprando imóveis e novas famílias chegando através de redes construídas pelas anteriores.

Chamar tudo isso simplesmente de “turismo de parto” já parece insuficiente.

Florianópolis está assistindo à formação de uma nova comunidade internacional dentro da cidade.

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