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Por que é tão caro morar em Florianópolis?

Imóveis caros, aluguéis elevados e cidades vizinhas crescendo rapidamente. Entenda como o mercado imobiliário está redesenhando a Grande Florianópolis.

Florianópolis está expulsando seus próprios moradores?

Existe uma conversa que se repete com frequência em Florianópolis. Alguém conta que deixou a Ilha e foi morar em São José. Outro diz que está procurando apartamento em Palhoça porque não consegue mais pagar o que pedem por um imóvel parecido na Capital. Um terceiro continua trabalhando em Florianópolis, leva os filhos para atividades na cidade, encontra os amigos aqui, mas todos os dias atravessa uma das pontes para voltar para casa. A impressão é de que uma parte das pessoas que vive Florianópolis já não necessariamente mora em Florianópolis.

A explicação mais fácil seria dizer que a cidade ficou cara demais e está expulsando seus moradores. É uma frase ótima para uma rede social. O problema é que os números contam uma história bem mais interessante.

Florianópolis não está perdendo população. Muito pelo contrário. Entre os Censos de 2010 e 2022, passou de 421.240 para 537.211 habitantes, um acréscimo de quase 116 mil pessoas. Foi o maior crescimento absoluto entre todos os municípios de Santa Catarina no período. Ao mesmo tempo, São José passou de 209.804 para 270.299 habitantes e Palhoça saltou de 137.334 para 222.598. Em termos proporcionais, o crescimento de Palhoça no intervalo foi muito maior que o da Capital. Os dados são do Censo Demográfico e foram consolidados pela Secretaria de Estado do Planejamento de Santa Catarina.

Então talvez a pergunta correta não seja se Florianópolis está perdendo moradores. Não está. A questão é quem consegue chegar, quem consegue permanecer e onde estão morando as pessoas que fazem parte da vida econômica da cidade.

Uma cidade rica onde morar ficou muito caro

Há uma aparente contradição nessa história. Florianópolis não é apenas uma cidade de imóveis caros. É também uma cidade de renda elevada.

Nos resultados preliminares da amostra do Censo 2022, o IBGE calculou em R$ 3.636 o rendimento domiciliar mensal per capita médio de Florianópolis. Naquele levantamento, era o terceiro maior entre os municípios brasileiros, atrás apenas de Nova Lima, em Minas Gerais, e São Caetano do Sul, em São Paulo.

O mercado imobiliário, entretanto, também está no topo do país. Segundo o Índice FipeZAP, que acompanha preços anunciados de apartamentos prontos, o preço médio de venda residencial em Florianópolis chegou a R$ 13.531 por metro quadrado em agosto de 2026, com valorização de 8,2% nos doze meses anteriores. Entre as 56 cidades acompanhadas pelo índice, Florianópolis aparecia como a quarta mais cara do Brasil e a segunda entre as capitais, atrás de Vitória.

Vale uma ressalva importante: FipeZAP é um índice de preços de anúncios, e não de valores efetivamente registrados nas escrituras. Ele é muito útil para acompanhar tendência e comparar mercados, mas não significa que todo apartamento de Florianópolis seja negociado por R$ 13.531 por metro quadrado.

Ainda assim, façamos uma conta apenas para dimensionar o problema. Um apartamento hipotético de 70 m², se vendido exatamente pelo preço médio anunciado da cidade, chegaria perto de R$ 947 mil. Naturalmente existem imóveis muito abaixo e muito acima disso, e a diferença entre bairros, idade, padrão construtivo, localização e estado de conservação é enorme. Mas a ordem de grandeza ajuda a entender por que uma cidade pode apresentar renda elevada e, simultaneamente, ter uma parcela importante da população com dificuldade de acessar a propriedade imobiliária.

E comprar é apenas metade da discussão.

No aluguel, o cenário é parecido. O FipeZAP registrava em julho de 2026 preço médio anunciado de R$ 60,84 por metro quadrado por mês em Florianópolis. Aplicado novamente a um apartamento hipotético de 70 m², isso significaria aproximadamente R$ 4.259 mensais, antes de condomínio, IPTU e outros encargos eventualmente assumidos pelo locatário.

O problema, portanto, não é simplesmente dizer que Florianópolis tem renda alta ou que Florianópolis tem imóveis caros. As duas coisas são verdadeiras. A discussão começa quando tentamos descobrir se a renda de quem precisa morar na cidade acompanha o custo de acesso à moradia na mesma velocidade.

A ponte talvez conte essa história melhor que qualquer índice

Quem observa a Grande Florianópolis exclusivamente pelos limites municipais perde parte do fenômeno. Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu funcionam, em muitos aspectos, como partes de uma mesma cidade real, embora administrativamente sejam municípios diferentes.

Isso não começou agora. Em estudo publicado pelo IBGE sobre arranjos populacionais, baseado nos deslocamentos para trabalho e estudo então disponíveis, o arranjo de Florianópolis já apresentava 119,9 mil pessoas realizando deslocamentos entre seus municípios. Somente o fluxo entre Florianópolis e São José representava 54,1 mil pessoas; entre Florianópolis e Palhoça, outras 20,4 mil. O levantamento pode ser consultado na Agência de Notícias do IBGE.

Esses números são anteriores ao Censo 2022 e, por isso, não devem ser apresentados como fotografia atual do deslocamento metropolitano. Mas demonstram algo estrutural: a integração entre a Capital e os municípios vizinhos é antiga e muito forte.

Isso muda bastante a leitura do crescimento de São José e Palhoça. Não seria correto afirmar que essas cidades cresceram simplesmente porque Florianópolis ficou cara. Existem empregos locais, novos centros comerciais, universidades, serviços, empreendimentos imobiliários e dinâmicas próprias. São José e Palhoça deixaram há muito tempo de ser apenas cidades-dormitório.

Mas seria igualmente difícil analisar o crescimento da região ignorando a força gravitacional da Capital.

Florianópolis concentrava 397.025 pessoas ocupadas em postos de trabalho formais em 2023, segundo o IBGE Cidades. É um número expressivo diante dos 537.211 moradores registrados pelo Censo — embora as duas estatísticas não possam ser comparadas diretamente, porque medem universos diferentes. O dado ajuda, porém, a mostrar o tamanho do polo econômico que existe dentro de uma cidade territorialmente limitada e conectada ao continente por poucos eixos viários.

É aqui que o preço da moradia deixa de ser apenas uma questão imobiliária e passa a ser também uma questão urbana.

Talvez não exista uma expulsão. Existe uma seleção.

Quando o preço de determinado território sobe, ele não necessariamente esvazia. Pode acontecer justamente o contrário.

Pessoas com maior capacidade de pagamento chegam. Investidores compram. Famílias de outras cidades escolhem Florianópolis para viver. Profissionais de renda elevada se mudam para cá. A cidade continua crescendo e os imóveis continuam sendo ocupados e negociados. Olhando apenas a população total, portanto, não há qualquer sinal de uma Florianópolis sendo abandonada.

A transformação pode acontecer na composição de quem consegue morar em determinadas partes da cidade.

Esse é um detalhe importante porque muda completamente a expressão “expulsando seus moradores”. Não estamos falando necessariamente de alguém recebendo uma ordem para sair. O mecanismo é muito mais silencioso. Um jovem que cresceu em determinado bairro e, quando decide sair da casa dos pais, descobre que não consegue comprar ali. Uma família que precisa de um terceiro dormitório e percebe que consegue muito mais espaço atravessando a ponte. Um trabalhador que recebe uma oportunidade na Capital, mas procura sua residência em outro município. Um proprietário que percebe que o aluguel de temporada ou uma locação para um público de maior renda pode produzir um retorno superior ao contrato que mantinha há anos.

Nenhum desses movimentos isoladamente transforma uma cidade. Milhares deles, repetidos durante anos, transformam.

E existe ainda uma particularidade geográfica difícil de ignorar. Florianópolis não pode simplesmente crescer para todos os lados. Boa parte do território municipal está na Ilha de Santa Catarina, entre mar, morros, dunas, manguezais, áreas ambientalmente protegidas e uma malha viária com limitações evidentes. A oferta de solo bem localizado é, por natureza, limitada. Quando mais pessoas disputam esse espaço, o preço passa a funcionar também como mecanismo de seleção.

Isso ajuda a explicar por que o mercado imobiliário da Grande Florianópolis precisa ser analisado de forma metropolitana. Para uma família, a escolha pode não ser entre morar ou não morar em Florianópolis. Pode ser entre um apartamento menor na Ilha, um imóvel maior no continente de Florianópolis ou outro ainda maior em São José ou Palhoça, aceitando em troca mais tempo de deslocamento.

Nesse momento, o trânsito passa a fazer parte do preço do imóvel, mesmo que não apareça no contrato.

Quem paga pela valorização?

Para quem já possui um imóvel, a valorização imobiliária costuma ser recebida como boa notícia. E, patrimonialmente, geralmente é. Um proprietário que comprou um apartamento há anos e vê seu patrimônio se valorizar ganhou riqueza.

Mas cidades não são formadas apenas por proprietários.

Para quem pretende comprar o primeiro imóvel, cada nova valorização aumenta a distância até a entrada necessária para um financiamento. Para quem aluga, aumentos sucessivos podem exigir mudança de bairro, redução de área ou comprometimento maior da renda. Para empresas, o custo de moradia também importa: fica mais difícil contratar trabalhadores para funções presenciais quando morar próximo ao emprego se torna caro demais.

Essa discussão aparece em várias cidades valorizadas do mundo e não significa que valorização imobiliária seja ruim. Seria estranho, inclusive, uma imobiliária defender que imóveis deveriam perder valor. A questão é outra: uma cidade pode ser extremamente bem-sucedida como ativo imobiliário e, ao mesmo tempo, produzir dificuldades crescentes para parte das pessoas que precisam viver nela.

Florianópolis parece estar entrando cada vez mais nessa discussão.

E há outro efeito curioso. Quanto mais caro fica o núcleo valorizado, mais interessante economicamente se torna construir fora dele. Novos bairros se consolidam, comércio acompanha os moradores, serviços aparecem, empresas mudam de endereço e outros centros urbanos ganham força. A valorização de Florianópolis, portanto, pode contribuir indiretamente para a valorização e transformação de toda a região metropolitana.

Palhoça talvez seja o exemplo mais evidente dessa mudança. Entre 2010 e 2022, sua população aumentou em mais de 85 mil habitantes, crescimento de aproximadamente 62% no período. São José ganhou mais de 60 mil moradores. Biguaçu, quase 19 mil. Florianópolis ganhou quase 116 mil.

Somados, apenas esses quatro municípios incorporaram aproximadamente 280 mil habitantes em doze anos.

Isso é praticamente uma nova cidade surgindo dentro da cidade que já existia.

Então Florianópolis está expulsando seus moradores?

Os dados disponíveis não permitem responder simplesmente “sim”. E talvez essa seja justamente a parte mais interessante desta matéria.

Florianópolis continua crescendo. Continua atraindo moradores. Possui renda elevada, mercado de trabalho relevante e um dos mercados imobiliários mais valorizados do país. Não existe evidência de um êxodo populacional da Capital em direção às cidades vizinhas.

Mas também seria ingênuo olhar para um metro quadrado médio anunciado acima de R$ 13 mil, para aluguéis próximos de R$ 61 por metro quadrado e para o crescimento extraordinário dos municípios do entorno e concluir que o preço da moradia não está alterando a forma como as pessoas ocupam a região.

Talvez “expulsão” seja uma palavra forte demais para descrever o fenômeno. Seleção econômica do território provavelmente seja uma expressão menos chamativa e mais precisa.

Florianópolis continua recebendo gente. A questão é que talvez já não consiga receber qualquer pessoa nos mesmos lugares.

E essa diferença importa.

Porque uma cidade não é formada apenas por quem consegue comprar seus imóveis. Ela também depende do professor, do garçom, do enfermeiro, do funcionário do comércio, do técnico, do motorista, do estudante, do servidor, do trabalhador da construção civil e de milhares de outras pessoas que precisam estar aqui todos os dias.

Se uma parcela crescente dessas pessoas precisar morar cada vez mais longe, Florianópolis não deixará de existir nem necessariamente deixará de crescer.

Mas será uma Florianópolis diferente.

E talvez a pergunta que devamos começar a fazer não seja mais quanto custa morar em Florianópolis.

É quem ainda consegue morar aqui. E não há nada de pejorativo nisso.

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